| Ciência versus religião |
Ciência versus religião – discórdia da ignorância
Gabriel Louis Le Campion¹.
Há muito percebe-se que existe uma guerra entre religião e ciência; digo ciência cuja base se firma no paradigma Descartes-Newton.
Essa guerra algumas vezes velada outra escancarada, tem ultimamente afligido o sistema educacional nos países ocidentais, inclusive com restrições ao ensino, por exemplo, da disciplina de evolução, essa última calcada no Darwinismo e/ou no neodarwinismo.
Obviamente, tal acirrada contenda, com defensores em ambos os lados, baseia-se mais na ignorância, e aqui relato que a ignorância em questão está afeta aos contendores independentes de seu grau de formação, quer religiosa quer científica. Nota-se claramente que, por incrível que pareça, o desconhecimento do que é religião e do que é ciência, permeia as contendas, sendo esta a principal causa.
Quando a filosofia faz parte do núcleo dos cursos de mestrado e doutorado criamos respectivamente a figura do MSc. – Mestre em Ciências ou o PhD – Phylosofical Doctor (doutor em filosofia), por outro lado, quando alijamos a filosofia do curso de doutorado, por exemplo, criamos o especialista ou doutor (doutor em biologia molecular, em oceanografia, etc.). Esse por sua vez, quando restrito ao seu campo do saber e desconhecendo os limites da própria ciência, ao tentar avançar sobre o conhecimento, notadamente o divino, pode em alguns casos, sentir-se o “PhDeus”, o dono da verdade.
Do outro lado, o religioso restrito apenas as sagradas escrituras, ao tentar avançar sobre o conhecimento científico, tende a execrá-lo, como um conhecimento pagão, ameaçador, que deve a todo custo ser abolido e se possível queimado na fogueira. Alguns até citam para tal o Gênesis 3:22 embasado nas palavras textuais divinas: “ Eis que o homem provou do fruto da árvore da ciência e como um de nós tornou-se conhecedor do bem e do mal e para que ele não tome a árvore da vida em suas mãos e coma e viva eternamente, ele terá que ser expulso do Paraíso.” Notem que o Genesis, ao referir-se ao fruto da “árvore da ciência”, é claro no tipo de fruto, aquele que “tornou o homem conhecedor do bem o do mal”, refere-se portanto a um conhecimento de natureza abstrata, não dominado pela ciência de Descartes e Newton.
Entretanto, mesmo com a clara citação do Gênesis, alguns religiosos insistem em condenar todos os frutos da “árvore da ciência” e por extensão toda a referida árvore, como se essa fosse portadora de frutos maléficos. No Gênesis é a atitude do homem que é condenada e não o que provêm da árvore em si.
Ambos, doutor e religioso, portanto, sentem-se ameaçados, um pela posição social, pelo ego e pela incapacidade de lidar com verdades absolutas, o outro pela fragilidade de sua fé. Ambos, porém afetos de suas restrições, de seus limites, quanto seres humanos incompletos, pequenos e esquecidos.
Obviamente, a filosofia, tão relegada na contemporaneidade (por isso as divergências em questão), pode muito bem mostrar a inutilidade de tal contenda.
Para demonstrar o que escrevo como cientista, utilizarei da filosofia da ciência, relegada do currículo dos muitos cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Até por que na sociedade de consumo, tempo é dinheiro, daí a redução dos currículos. Portanto, vou filosofar em breves linhas sobre o que é ciência.
Ciência (conforme o paradigma Descarte-Newton): “É o conhecimento que, em constante interrogação de seu método, suas origens e seus fins, procura obedecer a princípios válidos e rigorosos, almejando experimentação, coerência interna e sistematicidade.” (HOUAISS, 2001).
Veja que ciência, como entendem os cientistas, baseia-se principalmente no método. Assim norteada por um método a ciência busca validar o fenômeno.
Vamos inicialmente entender o que é um fenômeno. A palavra fenômeno deriva do grego Phainómenon algo como: “coisa que aparece”. Todo fenômeno é infinito em si, a única coisa que percebemos é o que os nossos sentidos e mais recentemente, nossos instrumentos nos mostram.
Assim, vou descrever um simples fenômeno e como a ciência tenta validá-lo. Peguemos por exemplo, um objeto como uma caneta, segurando-a na mão, erguendo-a um pouco, poderemos notar que ao soltá-la ela cairá. Se soltarmos outra vez ela tornará a cair; podemos nesse caso usar a ciência para explicar o fenômeno. No entanto, se ela subisse ou descreve-se uma trajetória lateral, ou diagonal, ou até permanecesse suspensa sem deslocar-se, de modo que a trajetória jamais se repetisse; não poderíamos explicar cientificamente o fenômeno, pois não existiria repetição do fato observado. Nesse caso a ciência não serviria para nada.
No entanto, notamos que, quando largamos a caneta ela cai, aparentemente em uma trajetória retilínea e que esse fenômeno repete-se varias vezes de igual modo. Nesse caso poderemos utilizar a ciência para validá-lo. Para tanto, seguem-se alguns passos, inicialmente formula-se uma hipótese baseada no fato observado, qual seja, que todas as vezes que largarmos a caneta ela cairá em uma trajetória retilínea.
A segunda etapa consiste na utilização de um método (o instrumento da ciência) que seja adequado ao experimento. E por último a experimentação, a repetição, e a conseqüente validação.
Entretanto, se utilizarmos outro método diferente do primeiro experimento, porém mantendo as demais etapas, existirá uma grande possibilidade de que os resultados obtidos sejam diferentes. O método é, portanto, crucial na validação do fenômeno. Muitos experimentos realizados apresentam diferenças devido ao método. Então, vamos observar melhor o método, qual a sua importância para o experimento.
O método científico é o instrumento que validará o fenômeno, portanto ao formularmos a nossa hipótese, que nesse caso consiste na afirmativa “uma vez solto o objeto cairá”, deveremos ter o cuidado de utilizarmos um método adequado. Bem, qualquer que seja o método adequado, que exista ou que venha a existir, ele não consiste em validar diretamente a hipótese por nós formulada, todo o método utilizado independente da sua natureza, não visa demonstrar diretamente o fenômeno ou confirmar a hipótese. O método, pasmem, serve apenas para rejeitar o oposto do que observamos, o que em ciência denomina-se de hipótese da nulidade.
Nesse exemplo, a hipótese da nulidade diz que “ao soltarmos o objeto ele não cairá”. Ao rejeitarmos a hipótese da nulidade, por exclusão, sobra o que observamos “que ele cai quando o soltamos”.
Assim, não provamos diretamente o fenômeno, mas sim indiretamente, por rejeição da hipótese da nulidade, do seu oposto.
Mas a coisa não termina por aqui. Por mais adequado que seja o método, este apenas conseguirá rejeitar a hipótese da nulidade em no máximo 99,99% dos casos (que denominamos altamente significante), geralmente nas ciências exatas. Em biologia o grau de aceitação pode girar em torno de 95% (significante) e em psicologia 85%. Veja que, quanto mais complexa a natureza do fenômeno, menor o grau de rejeição da hipótese da nulidade.
Assim, a ciência lida com verdades relativas, por não conseguir rejeitar na sua totalidade (em 100% dos casos) a hipótese da nulidade. Grosseiramente, é como se observássemos os fenômenos em ciência através do seu reflexo em um espelho, nunca vendo a imagem por completo. Daí a infinitude do fenômeno.
Ciência portanto, não deveria ser uma forma de religião, pelo simples motivo de não ser uma boa religião. Não invalidando contudo a sua fé nela.
Por outro lado, religião lida com verdades absolutas, por exemplo, veja a seguinte questão: “Você acredita em Deus”? Nesse caso, independente de sua resposta, não existe método que possa rejeitar a hipótese da nulidade. Estamos diante de uma verdade absoluta! Verdades absolutas não podem ser validadas, nem tão pouco invalidadas, estão além dos instrumentos da ciência. Por essa razão a ciência não deveria discutir religião, nem vice e versa. Religião é verdade absoluta sendo, portanto, dogma. E a ciência não dispõe de instrumentos (método) para validar verdades absolutas.
Em vista dessas assertivas é completamente inútil a um cientista discutir dogmas, ou tentar provar a existência de Deus. Assim como o é, um religioso tentar discutir ciência sob a ótica divina (baseado nas escrituras sagradas). Ciência e religião não são antagônicas, como querem que pareçam muitos cientistas e religiosos, mostrando assim sua completa ignorância, são apenas diferentes, algumas vezes até se complementam.
Como o ditado popular, “cada macaco no seu galho”, cientistas e religiosos deveriam conhecer os seus limites, e restringirem-se a sua douta ou santa ignorância. Ciência e religião só podem ser entendidas em seu conjunto, pela única forma de conhecimento que permite aproximá-las – a filosofia.
1 – Gabriel Louis Le Campion é Mestre em Ciências e Professor Assistente do Setor de Biodiversidade e Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal de Alagoas e membro do grupo de estudos “o ponto de mutação”.







































