PAIXÃO
“Herdamos de nosso meio familiar não apenas padrões genéticos, mas também padrões psicológicos, e os indivíduos em que nos transformamos são em parte criação nossa em parte herança do passado”.
Greene & Sharman-Burke em Uma Viagem Através dos Mitos. 2001.
Gabriel Louis Le Campion¹
O termo paixão deriva do grego pathos que significa “mal” ou patologia. Mitologicamente falando, tem origem em três mitos o de Eros e o de Pandora e no seu extremo o de Narciso.
Eros, filho da Noite com o Érebo, é responsável pela harmonia cósmica, segundo Hesíodo, é um dos elementos primordiais do mundo. Também é representado pela figura de um menino alado portando um arco e várias flechas, estas destinadas a despertar os ardores da paixão entre os mortais. Devido à sua turbulência e malícia, foi vitima de suas próprias armas, apaixonando-se pela bela Psique. Os antigos gregos descreviam a paixão como um Ker: “calamidade alada”, similarmente a velhice e a peste. “A paixão sexual desordenada podia ser a causa de distúrbios em uma sociedade organizada” JULIEN 2002.

Pandora, a primeira mulher criada por Hefaistos a partir de uma mistura de terra e água, tão má e preguiçosa quanto bela, possuidora de todos os dons dos deuses e em especial o dom da palavra, o qual usava frequentemente para manipular e enganar. Casada com Epimeteu, irmão de Prometeu, que enviou uma jarra lacrada (a caixa de Pandora) para o irmão, que não deveria jamais ser aberta. Pandora, porém, curiosa e manipuladora, abriu o recipiente e todos os males abateram-se sobre a humanidade: a velhice, a doença, o vício, o trabalho, a loucura e a paixão. Porém, Prometeu em sua sapiência, tinha colocado no fundo da jarra a esperança, e com isso salvou a humanidade,pois se adoecemos temos a esperança de curarmo-nos, se nos apaixonamos e não fomos correspondidos temos a esperança de encontrarmos uma nova paixão e assim por diante. Pandora simboliza também o perigo representado pela beleza feminina. “Os dons dos deuses à beleza feminina que contém as sementes de todos os males e de todas as alegrias da existência” JULIEN 2002. E também o da esperança, mostrando assim o principio dualista em todas as coisas.

O mito de Narciso por outro lado nos mostra de onde parte a gênese da paixão,o seu âmago, o seu lado oculto que na maioria dos casos não queremos enxergar ou não podemos ver,se bem vejamos: Narciso filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liriope desde criança dotado de uma beleza estranhamente extraordinária tanto que quando criança sua mãe levou-o preocupada ao Oráculo de Delfos onde a pistonista alertou-a que ele viveria muito desde que nunca contemplasse a sua imagem. Sua mãe então mandou quebrar todos os espelhos de sua cidade para que ele não pudesse mirar-se neles. Assim o rapaz cresceu tendo, entretanto uma ligeira noção de sua beleza visto que notava a admiração das pessoas quando o viam.
Narciso tornou-se com o tempo vaidoso e egocêntrico. Isso fez com que ignorasse o amor das jovens atraídas pela sua beleza. Rejeitou também o amor do jovem Ameinias (efluente do rio Helicão), que tendo sua paixão não correspondida clamou por vingança aos deuses e se suicidou em frente à porta de Narciso.
A ninfa Eco assim que o viu apaixonou-se por ele, mas como tinha sofrido um feitiço de Hera que a condenou a só repetir as palavras dos outros, não pode declarar seus sentimentos; Narciso porém percebeu-a e chamou-a, mas como só ouvia suas palavras de volta, repeliu-a e ela passou apenas a segui-lo a distância nos seus passeios na floresta, escondida entre a vegetação e as montanhas.

Nesse meio tempo o deus Ártemis ouviu o pedido de vingança de Amenias e durante uma caçada conduziu os passos de Narciso para um lago. Quando ele inclinou-se para beber notou refletida na água a face mais bela que já tinha visto, imediatamente apaixonou-se e tentou beija-la, porém ao fazê-lo a água agitava-se e o rosto desaparecia. Notou então que se ficasse parado o rosto voltava a surgir e novamente tentava beija-lo mas novamente a imagem sumia. Ficou então Narciso ali, sentado a beira do lago contemplando aquele rosto, objeto de sua paixão, sem contudo conseguir tê-lo, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, inatingível, até morrer de tristeza e inanição.
A paixão (comparada ao amor) é um estado sentimental de uma euforia extrema, tudo é sentido ao máximo e ao mesmo tempo, é como uma “loucura” do amor podendo muitas vezes nos deixar doentes, ou alucinados. Se não correspondida, pode também levar o portador a estados depressivos, à doença à velhice e até a morte. Produz vícios como o de ficar telefonando para o outro diversas vezes por dia, ou embriagando-se em bebedeiras homéricas. Portanto, não é por acaso que ela tenha saído da Jarra onde todos esses males, aqui relatados, se encontravam.
Mas o que suscita a paixão, é a garantia da impossibilidade, o desafio, o disputado, o proibido, o cobiçado, etc. Como ela se sustenta na impossibilidade do ter (como bem reflete o mito de narciso), ela obviamente se finda com a posse. Durando geralmente um curto período de tempo entre umas poucas semanas a no máximo dois anos; período este em que a maioria dos relacionamentos entre casais também se finda.
Biologicamente falando, a paixão é uma “armadilha” sentimental que visa acelerar o processo reprodutivo, sem entretanto, garantir os laços primordiais que levam a constituir a família, portanto é mais comum entre os jovens sendo mais freqüente em situações em que a população corre perigo de extinguir-se, seja pelo excessivo número de indivíduos(aumento da densidade) que ativam consequentemente mecanismos endógenos (gatilhos) que levam a redução acentuada da prole, seja pela drástica redução nesse mesmo número de indivíduos(diminuição acentuada da densidade) propiciada por mecanismos externos como guerras, pandemias etc.
Psicologicamente falando, a paixão cria um forte campo canalizado em direção ao outro, uma forte transferência para o outro, tão forte que passamos a viver a vida do outro, a ponto de dizermos “sem ela (e) eu não posso viver” ou “ela (e) é minha vida” ou coisas do gênero. Portanto a paixão, na relação com o outro, nos torna cegos; como um túnel ela nos oblitera e como viseiras apenas nos mostram o outro, não em sua plenitude, mas apenas nas suas virtudes. O objeto do apaixonado não tem defeitos, é simplesmente perfeito, lindo.

O dito popular comicamente mostra a situação em que nos colocamos quando estamos apaixonados: “A paixão é como uma ampulheta, à medida que enche o coração, esvazia o cérebro”.
A paixão não se constrói, ela surge, e como um furacão, ela muda a nossa vida, nem sempre, contudo, para melhor. Dada à efusão de sentimentos que surgem todos descontroladamente ao mesmo tempo, cria-se a ilusão de que a paixão é algo a ser buscado nos relacionamentos de casais, como sendo a essência maior, a garantia do amor, e assim confundimos a paixão com o amor, apesar parecerem irmãos são profundamente diferentes. Por focar-se fortemente no outro, a paixão depende do outro para ser vivida, o amor é exatamente o oposto.
Como nos mostra Narciso a paixão ocorre quando identificamos no outro o nosso reflexo, não qualquer reflexo, mas aquele que mais ardentemente cobiçamos em nós, que amamos em nós e que não vemos seja por não queremos ver ou por não podermos ver e portanto é refletido, projetado no outro, como um reflexo num lago de águas cristalina.
Contrariamente à paixão, o amor não surge como um “encanto”, o abrir de uma jarra. Ele necessita ser construído passo a passo, continuadamente, diferentemente da paixão, que apesar da atenção excessiva dispensada ao outro, findar-se-á; contrariamente o amor não acaba com a posse, carecendo de cuidado, de ser cultivado, mas tal como um jardim, não necessita de 24 horas de atenção continua, pois floresce forte e belo, diferentemente da paixão que provoca transbordamentos sentimentais; o amor desperta sentimentos, porém de modo sutil, quase imperceptíveis e de uma leveza que nos faz “flutuar” e portanto não oblitera a nossa razão; por ele jamais nos tornaremos escravos, ao contrario nos libertaremos, em um processo de feedback, quanto mais amamos mais livres seremos, quanto mais livres, tanto maior o nosso amor.
Por ser dotado de uma sutileza extraordinária, o amor pode, às vezes, passar despercebido e corremos o risco de percebermos apenas quando o perdemos. Porém, apesar de sutil, é a maior força do universo, se pudermos chamá-lo de força. É o laço mais sutil que une você ao outro, e não é sufocante. É sutil, pois nasce em você e nunca no outro, e só você o sente, pois o outro sentirá o dele, por isso você não pode ser responsável pelo sentimento do outro, apenas sentir o seu. Você viverá seu amor ou não, o amor é seu, está em você nunca no outro, e por isso ele o liberta. É o único e real alimento da criança e, portanto da “alma”, sendo a verdadeira essência que nos faz viver a realidade plena, libertando-nos da miragem, da ilusão.
Se você se sente escravizado pelo amor, você está na realidade diante da paixão e isso se dá pela transferência para o outro, o que mostra que é você que está se escravizando, tal como Narciso sentado contemplando o seu reflexo no lago, o outro é apenas o nosso espelho, apenas a ilusão.
Por que então buscamos intensamente a paixão e não o amor, ou quando dizemos que buscamos o amor, estamos na realidade correndo atrás da paixão.
A primeira constatação é a nossa total ignorância a respeito desses sentimentos. Propositadamente essa ignorância tem origem em um segundo fator, a sociedade de consumo, esta por sua vez, difunde de modo idolátrico a paixão e relega a todo custo o amor. Quando essa fala do “amor” na realidade está alardeando a paixão, e por que? Pelo simples motivo de que a paixão é vendável, o amor não. A sociedade de consumo, contrariamente à sociedade caçadora e coletora, que lançou as bases da família, baseia-se no consumo exacerbado de bens, que em sua maioria são fúteis e não levam a coisa alguma, e muito menos ao amor. Os bens para serem vendidos não podem durar para “sempre”, e têm de ser periodicamente trocados. O único sentimento que encontra eco nessa forma de viver da sociedade de consumo é a paixão, e por isso ela é enormemente propalada; se bem vejamos: Um dos bens de consumo bastante almejado pelas famílias é o automóvel, e a mídia em seu forte apelo faz com que nos apaixonemos por ele, e em vista disso direcionamos nossa energia e esforços para comprá-lo, e tão logo o possuímos, em pouco tempo o desejo acaba.

Notem que nessa simples atitude reproduzimos todo o mecanismo da paixão, tal como essa se finda com a posse, logo aquele automóvel não nos servirá mais e o abandonamos para buscar um outro. O consumo aumenta e a sociedade consumista agradece. Da mesma forma, ocorre aqui um mecanismo de feedback em que o individuo torna-se escravo não só do objeto, mas principalmente da moda.
Ambos os mitos fornecem também indicativos (caminhos) alternativos de como a paixão pode ser utilizada de modo positivo, influenciando a nossa vida para melhor. O mito de Pandora nos dá uma excelente pista, quando coloca a paixão e o trabalho na mesma “jarra”. Podemos e devemos, nesse caso, utilizar a paixão como força que nos impulsiona a vencer os obstáculos; para tanto, é preciso fazer o que se gosta. Por exemplo: quando no ambiente de trabalho estamos criando ou executando projetos, escrevendo um livro, fazendo planos para obter a casa própria, montar uma empresa, fazer um curso, especializando-se etc. Em todas essas atividades a paixão é salutar por que faz você dar tudo de si e viver bem o que você esta fazendo. Quando você conclui um projeto, termina um livro, etc., a paixão acaba, como se é de esperar, e você logo parte para novas realizações, e isso é por demais positivo.
Eros e Pandora e Narciso simbolizam a origem da paixão, dos seus males e também da euforia, da alegria e da esperança, e a forma como vamos vivê-los dependerá única e exclusivamente de nós.
Podemos até nos apaixonar no relacionamento com o outro, mas de forma consciente teremos igual certeza que ela se findará, e o que sobra na relação, que nos mantêm unidos ao outro é o amor, e não adianta trocarmos de parceiro em busca novamente da paixão, por que do mesmo modo ela se findará. Temos que construir o amor na relação, pois só existe crescimento verdadeiro estando na relação com o coração aberto para o outro, pois o amor é seu, e só você o viverá.
Devemos estar sempre buscando a paixão em nossas atividades diárias e concomitantemente o amor em nossos relacionamentos. A mitologia, portanto, nos mostra como sabiamente conseguiremos aliar uma excelente produção a uma vida harmoniosamente amorosa, independente do tipo de sociedade que vivamos ou venhamos a construir.
1- Professor Assistente e chefe do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Alagoas
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1-CAMPION,G.L.LE. REALIDADE. Conferência realizada no Centro de Ciências
Biológicas da Universidade Federal de Alagoas outubro de 2003.
2-GREENE,l. & SHARMAN-BURKE,J. Uma Viagem Através dos Mitos. Ed Jorje Zahar Editor , Rio de Janeiro, 2001.
3-JULIEN,N. Dicionário de Mitologia Ed. Rideel São Paulo, 2002,330p.
4-LARROUSSE World Mythology, Pierre Grimal, Londres, Hamlyn,1989